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  Dr.Moisés Cohen opera o jogador Vampeta

 

Um estalo e a dor. Lá se foi o ligamento...

 


Por André Naddeo, repórter iG em São Paulo

SÃO PAULO - Uma corrida muitas vezes despretensiosa. Um passo em falso. Uma entrada mais dura. Pronto. Com o pé fixo, o joelho faz um movimento rotacional, deixa o ligamento sob tensão até causar um estalo. Dor, muita dor. E está rompido o ligamento cruzado anterior, a lesão mais temida por 10 em cada 10 atletas, em especial, no futebol.



Moisés Cohen, médico que operou o joelho de Vampeta, explica o exato local da lesão


A lista dos que já passaram por esta verdadeira tortura é extensa. Nos campos de futebol, Raí, Luizão, Rodrigo Fabri, Pedrinho (3 vezes!), Juninho Paulista, Roberto Baggio, dentro outros. Nos tatames, Aurélio Miguel e Edinanci Silva. Isso sem falar em Ana Moser, que também sofreu – e muito – com o joelho, chegando até a recorrer a operações espirituais.

Recentemente, mais um novo caso ganhou espaço na mídia. Num lance isolado no meio-campo, Vampeta torceu o seu joelho esquerdo. Sozinho! Saiu de maca, sentindo muita dor. No dia seguinte, a ressonância magnética confirmou: o volante corintiano tinha mesmo rompido o ligamento cruzado anterior. Cirurgia e oito meses de molho. E não adianta fugir. Sem sustentação, o joelho lesionado falha, desencaixa, causando sempre dor a cada movimento exagerado.

(Para ver em detalhes a cirurgia de reconstrução do LCA de Vampeta, selecione o link: 56k - 100k)

Mas qual a razão da freqüência deste tipo de lesão? Por que o atleta que rompe o LCA demora tanto para voltar aos gramados? Pensando nisso, o Último Segundo resolveu tirar essas dúvidas com dois dos maiores especialistas em ortopedia e medicina esportiva no Brasil: os doutores Osmar de Oliveira, também comentarista da Rede Record, e Moisés Cohen, chefe do centro de traumatologia da Unifesp e responsável pela cirurgia de Vampeta - na última quarta-feira.



À esquerda, terço central do ligamento patelar retirado. Nas imagens seguintes, o enxerto colocado transversalmente


Explicar os reais motivos desta grave lesão não é tarefa fácil. Os fatores são os mais diversos. Vão desde a falta de preparo físico do atleta, até a conivência dos árbitros, que não coíbem com vigor a violência dentro dos campos. “Hoje em dia o futebol arte perdeu para o futebol força. Você não vê mais atletas fracos, magrelinhos”, ressalta o Doutor Cohen, cuja mesa de cirurgia já foi visitada por outros ilustres - como Raí, Rogério Pinheiro, Nem, Sandro Hiroshi, entre outros.

Osmar de Oliveira concorda com a tese de que o excessivo uso do ‘jogo de corpo’ também contribui para o aumento desta lesão. E completa: “são fatores decisivos a grande quantidade de jogos, os gramados ruins e a falta de estrutura física dos jogadores”.

Engana-se, portanto, quem pensa que a tese antiga de que o reforço muscular exagerado pode expor o atleta a esta situação, como muitos juravam ter acontecido com Ronaldo, quando jogava pelo PSV (HOL). O ligamento cruzado anterior é um caso específico. Claro que o trabalho de fortalecimento deve ser feito com cautela, mas no caso do LCA, ser forte acaba sendo um fator de prevenção para esta perigosa lesão.

“Essa história de que excesso de trabalho físico prejudica o atleta é pura balela. Quanto maior o reforço muscular, menos a probabilidade de romper o cruzado”, explica Oliveira, que não tem dúvidas em apontar o LCA como o grande vilão do esporte na atualidade. “Existem lesões graves como fratura de tornozelo, problemas na coluna etc. Mas, pelo número de casos, a ruptura do cruzado é hoje o caso mais grave”

Na faca

Não tem jeito. Quem rompe o LCA tem um único caminho no árduo caminho rumo à recuperação. A cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior é um procedimento delicado. O paciente se interna no hospital e só vai embora, em geral, dois dias depois, de muletas.



A seta vermelha aponta o novo ligamento do joelho de Vampeta. Seis meses para ele se reintegrar


A anestesia varia para cada caso. Na maioria das vezes, a peridural (aquela das cesarianas) acaba sendo a utilizada. No Japão, uma anestesia local está sendo testada com relativo sucesso.

A idéia central da cirurgia é criar um novo ligamento e enxertá-lo no lugar do que foi lesado. Para isso, após uma cisão no joelho, retira-se o que os médicos chamam de ‘terço central’ do ligamento patelar, tendão que envolve e protege os dois joelhos.

Junto com o enxerto, são retirados dois fragmentos ósseos, sendo um provindo da tíbia (parte inferior) e outro do fêmur (parte superior). Feito isso, a tarefa agora é colocá-lo no lugar do lesionado. Por meio de uma técnica cirúrgica chamada artroscopia, três pequenos cortes são feitos no joelho e por eles são inseridas câmeras, de fundamental importância para guiar os médicos.

Ao chegar no local da ruptura, o primeiro passo do ortopedista é retirar o ligamento lesionado e limpar o local, para que possa receber sem problemas o enxerto. Depois disso, é chegada a hora de umas das tarefas mais delicadas da cirurgia.

Para que possa fixar bem o novo ligamento, é preciso fazer uma espécie de ‘túnel’, desde a tíbia até o fêmur. É por meio dele que o profissional vai colocar a nova estrutura, e fixá-la no joelho usando dois parafusos, em geral, de titânio. Está pronto o novo ligamento. Os dois corpos estranhos ficarão ali, no joelho do paciente, para o resto de sua vida. Não há necessidade de removê-los.

Muita calma nessa hora

Passada a operação, o lesionado fica cerca de duas a três semanas andando somente com o auxílio de muletas. Em hipótese alguma pode se fazer qualquer tipo de pressão no joelho, até que os pontos estejam devidamente cicatrizados. Apenas movimentos de flexão, com o paciente sentado ou deitado. Após este tempo, deixada as muletas de lado, entra a fase decisiva da recuperação: a fisioterapia.

Bem ao seu estilo, em sua primeira entrevista após a ruptura do ligamento, Vampeta esbanjava otimismo: “voltarei em três, quatro meses. Os médicos falam em mais tempo só para não sofrerem pressão depois, caso demore mais”. Ser otimista é um fator positivo, claro, mas o processo de reconstrução do ligamento, infelizmente, independe disso.

“O prazo de recuperação é biológico, em torno de seis meses, já que demora para o novo ligamento se reintegrar dentro do joelho. É claro que no caso do Vampeta, por ser jovem ainda e pelo seu físico de atleta, acaba sendo uma vantagem. Mas não foge muito disso”, reforça o Doutor Moisés Cohen, realista.



Caneta do Doutor Cohen aponta o exato local onde estão os parafusos no joelho do corintiano



Diante disso, a paciência e dedicação do atleta acabam sendo armas fundamentais no árduo processo de recuperação. Exercícios na piscina, levantamento de peso, tudo vale no processo fisioterápico. O objetivo máximo é fortalecer a musculatura da perna operada, uma vez que o processo pós-operatório acaba sempre atrofiando um pouco a perna lesionada. Tudo isso, claro, sem exageros.

“Tem que obedecer as regras. No começo, o paciente faz tudo certo, mas depois de uns dois meses, vendo que está tudo bem, ele começa a abusar...Levanta 15 kg, ao invés dos 10 recomendados. Isso pode comprometer a cirurgia”, avisa Osmar de Oliveira.

Depois de tanto sofrimento, tanto na hora da lesão quanto depois da cirurgia, o melhor mesmo é ter muito cuidado. Para não passar por tudo isso de novo.